sábado, 14 de junho de 2008

A imprensa não ‘pesca’ os escândalos

Muita gente confunde e atribui à imprensa a descoberta dos muitos escândalos políticos que acontecem neste país. Mas não é bem assim. De um modo geral, o papel da imprensa é extremamente relevante mas não sob este aspecto.
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A maior contribuição da mídia (as sérias) é amplificar os detalhes dos escândalos para a sua máxima absorção – o que beneficia, e muito, a opinião pública.
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É verdade que algumas descobertas nacionais acontecem pela imprensa, como é o caso do famoso Mensalão, o das Ambulâncias e até as puladas de cerca do senador Renan Calheiros. (Bem, estamos falando dos escândalos mais recentes...)
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Por conta da mídia, os ex-deputados Roberto Jefferson (PTB) e o todo-poderoso José Dirceu (PT) tiveram os seus mandatos cassados. Outros tantos renunciaram ou não se reelegeram porque foram condenado pelas urnas nas eleições subseqüentes.
Calheiros conseguiu perder os anéis, não os dedos: deixou a poderosa presidência do Senado e hoje vive “escondido” dos holofotes, nas sombras daquele soturno plenário.
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Uma prova de que a imprensa nem sempre pesca os escandalosos, porém, pode ser vista nas periferias do país. Londrina, no Norte do Paraná, por exemplo, teve o prefeito Antônio Belinati cassado no ano 2000 por conta do estigmatizado Caso Ama/Comurb, mas a descoberta do problema se deu através da então vereadora Elza Correia, que descobriu um contrato da Prefeitura para a aquisição de lixeiras superfaturadas. O novelo do Ama/Comurb foi sendo desenrolado até chegar em uma unidade de saúde que tinha sido pomposamente inaugurada pelo prefeito.
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Foi ali que o prefeito caiu, mas não foi porque a imprensa descobriu. A imprensa da ocasião, porém, deu publicidade e fez uma cobertura maciça em torno do caso, ajudando a formar a opinião pública local e estadual.
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Oito anos depois, Londrina novamente vive enlameada em outro escândalo político, agora (por enquanto) envolvendo a maioria de seus vereadores.
O caso iniciou dia 10 de janeiro com a prisão do ex-vereador Henrique Barros, acusado de concussão e outras irregularidades.
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A prisão foi um mérito exclusivo da Promotoria Pública. Ela é quem descobriu as barbaridades e chamou a imprensa para dar publicidade. Até hoje as manchetes dos jornais diários dão conta do caso – que parece não ter fim.
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A imprensa ajuda muito e tem realmente a força do Quarto Poder, mas em se tratando de investigar e dar furo de reportagem deixa muito a desejar. Quando isso acontece, acontece quase que estritamente através da grande imprensa dos grandes centros, desde que não seja através de veículos chapas-brancas.
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Dificilmente a mídia interiorana descobre improbidades administrativas. Ela funciona mais como uma assessoria, um apêndice da comunicação do Ministério Público e de entidades de classe. Bate ponto quase que diariamente nestes locais.
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Isso acontece porque os proprietários desses veículos não investem em capacitação profissional, trabalham com quadro de pessoal enxuto, promovem grande rotatividade de funções, contratam os baratos “focas” e, pior, muitas vezes estão comercialmente “amarrados” com o Poder, numa relação promíscua e danosa para todos.
De quebra, os jornalistas caipiras são, de um modo geral, politicamente ingênuos e inexperientes. Só mesmo com bastante tempo de labuta para aprender.

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