sábado, 21 de junho de 2008

Sempre a culpa é da imprensa, né?

Hoje a primeira reação de qualquer corrupto preso em flagrante é culpar imprensa.”
A frase acima não é uma frase solta, e nem foi eu mesmo quem a cunhou. Surgiu aos ventos, há muito tempo, e a tempo do experiente jornalista carioca Alberto Dines inseri-la no artigo “A Culpa é da Imprensa”, publicado hoje em alguns dos principais jornais do país.
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E é verdade. Normalmente os inescrupulosos apelam para esta velha desculpa, e tenho a impressão que ela vai continuar sendo infelizmente sacada pelos pseudo-espertos.
Nos dias de comunicação globalizada e de tecnologia da informação, sempre haverá uma imprensa por perto para os malandros profissionais depositarem suas agruras.
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Veja o que escreveu o Dines. É muito interessante:

A culpa é da imprensa

Os adjetivos são fortes e justificados: é absurda, maligna e estúpida, a decisão tomada por um juiz paulista ao multar dois veículos jornalísticos (“Folha de S. Paulo” e “Veja-S. Paulo”) pela publicação de entrevistas com a pré-candidata a prefeita, Marta Suplicy (PT), antes de iniciada a temporada eleitoral. Mais discricionária ainda foi a multa aplicada à própria entrevistada. Ao que tudo indica o “Estado de S. Paulo” também será incluído no intempestivo furor punitivo por causa de uma entrevista com o atual prefeito e candidato à reeleição, Gilberto Kassab.
O procedimento adotado pelo juiz auxiliar Francisco Carlos Shintate e as promotoras do Ministério Público Eleitoral que prepararam as representações não pode ser visto como ato impensado, fruto de eventual incontinência. Ação estudada, isso é que lhe confere tanta periculosidade e deixa abismados juristas e magistrados das instâncias superiores. Além de evidenciar o despreparo e a precariedade na formação de bacharéis, a medida revela uma falha estrutural no edifício republicano resultante do acúmulo de sucessivos trincamentos. O mais visível é o escancarado desrespeito pela imprensa como instituição.
A crítica ao desempenho dos meios de comunicação é legítima, necessária, representa um avanço democrático. Mas quando governo e governantes se fingem de vítimas e, a pretexto de contestar tópicos do noticiário, distribuem ameaças cria-se um perigoso fosso de desconfiança no âmago da sociedade.
Hoje a primeira reação de qualquer corrupto preso em flagrante é culpar imprensa. Sem coragem para enfrentar a Polícia Federal que os investigou ou encarcera, preferem desancar a imprensa que noticia seus feitos e malfeitorias. O juiz auxiliar e as auxiliares que produziram as insólitas multas em S. Paulo apenas reproduziram o generalizado clima de animosidade contra os mensageiros. A melhor prova da má vontade está no parecer enviado quinta-feira pela Advocacia-Geral da União ao Supremo Tribunal Federal defendendo a manutenção na Lei de Imprensa de punições mais duras para jornalistas. Isso no exato momento em que o próprio STF examina a extinção do estatuto herdado da ditadura para substituí-lo por algo mais moderno e compatível com o estado democrático.
O juiz Shintate revela-se um leitor relapso de jornais e revistas (deve preferir a TV), desconhece a tradição jornalística de publicar séries de entrevistas com todos os candidatos em eleições majoritárias, independentemente do início formal da temporada. Entrevistar candidatos não é fazer propaganda, é um serviço público obrigatório. Veículos impressos (ao contrário dos eletrônicos sujeitos a concessões e regulamentos), desde que não caluniem ou ofendam, só devem satisfações aos seus leitores.
O ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, numa série de depoimentos ao repórter Ricardo Kotscho no portal “Último Segundo” teve a coragem de reconhecer que as relações governo-imprensa continuam a apresentar um alto grau de tensão. É possível que ao governo desagrade a cobertura da imprensa no caso da venda da Varig, mas a tensão é injustificada já que a imprensa apenas reproduz investigações ou denúncias. Se não o fizesse estaria traindo seus compromissos com o leitorado.
Nesta sexta-feira, agentes da Polícia Federal (órgão do Poder Executivo) invadiram os gabinetes de dois deputados (representantes do Legislativo) envolvidos em desvio de recursos destinados ao PAC. A repercussão é enorme. Culpa da imprensa?
Em determinadas situações a própria imprensa contribui para agravar desconfianças sobre sua atuação. Caso do não menos surpreendente boicote às comemorações dos 200 anos da circulação do primeiro periódico no país, o “Correio Braziliense”, lembrados apenas por dois veículos (“Folha de S. Paulo” e o homônimo contemporâneo do Distrito Federal) e ostensivamente ignorados pelos demais. Pecado mortal ou venial, mas significante.
O sábio d. Pedro II dizia que os erros da imprensa devem ser corrigidos pela própria imprensa. Ávido leitor de publicações, o imperador estabeleceu uma jurisprudência moral que leitores bissextos e desatentos deveriam levar em conta antes reviver a triste imagem da mordaça.”

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