segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A rica e pobre classe média

Nada mais realista. O comentarista Fernando Brevilheri, da Rádio Paiquerê AM, soltou hoje de manhã uma frase que sintetiza muito bem a relação sócio-econômica no Brasil: “A classe média é quem carrega este país nas costas”. E é verdade!
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Não que ninguém saiba disso. Todos sabemos (e muitos sentem no bolso), mas é que quase não se fala na questão – e é bom falar de vez em quando.
Já li por aí uma outro pensamento a respeito, e que igualmente sintetiza a mediana situação: “Neste país, rico sonega imposto, pobre é isento de imposto, a classe média paga o imposto”.
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Quem também abordou a problemática, e com alguma pitada de ironia – mas com bastante propriedade – é o cronista Paulo Briguet, do Jornal de Londrina.
Num texto leve, realista e objetivo, publicado há quase três anos mas que continua atualíssimo, Briguet lamenta pertencer à classe média. É o “Manifesto da classe média”. Veja abaixo:

Manifesto da classe média

Nós somos a classe média; vivemos no pior dos mundos. Os ricos nos desprezam; os pobres nos detestam. Somos incompetentes demais para sermos ricos, e arrogantes demais para sermos pobres.
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No noticiário econômico, os ricos são chamados de classes produtivas; os pobres são chamados de classes trabalhadoras. A classe média – dedução inescapável – não é trabalhadora nem produtiva.
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Mas a verdade é diferente. Trabalhamos muito e ganhamos pouco. E a nossa produtividade pode ser medida pela carga de impostos que pagamos. Não somos como os ricos, que têm seus advogados tributaristas para tentar diminuir a mordida do leão (aliás, dos leões). Nosso imposto é descontado em folha; nossas dívidas, como as dos pobres, vão direto para o SCPC.
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Os pobres, coitados, são pobres. Para eles tem o Bolsa Família, não é? A classe média nem sequer merece compaixão. Afinal, é a classe média – a classe medíocre.
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Quando somos assolados por dívidas, a saída é simples: – Venda um carro! – Corte a TV por assinatura! – Venda a casa própria!
Em outras palavras: – Ande de ônibus! – Assista à TV aberta! – Pague aluguel!
Em suma: – Vire pobre!
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Se há alguém que os radicais detestam, são os moderados. Por isso, a classe média é odiada e perseguida por ditadores de toda espécie.
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Outro dia um querido amigo se ofendeu quando eu disse que ele era de classe média. Não tive como convencê-lo de que, apesar da origem camponesa, fora graças às facilidades de um modo de vida mais confortável que ele teve acesso aos livros, viagens e experiências necessários para transformá-lo em um ótimo profissional.
Mas, para ele, o pior insulto é ser chamado de classe média.
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O repúdio pela classe média existe à esquerda e à direita. Para Marx, nós éramos a "classe barata tonta", que jamais se decide entre ser burguesia ou proletariado – e impede a revolução. Quando a revolução acontece, os conservadores nos culpam. Afinal, Lênin era de classe média. Seja qual for a ideologia, levamos bordoada.
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Crise política? Graças à classe média. Planos econômicos? A classe média que atrapalhou. Violência? É a classe média que não quer abrir mão dos seus privilégios. E tome confisco, desmoralização, empréstimo compulsório, "contribuição provisória" e imposto, imposto, imposto. A classe média é besta: a classe média paga.
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Alguém já viu algum plano, projeto ou programa governamental destinado a favorecer a classe média? Nunca. Isso não dá voto. Ninguém fala em ampliar a classe média. Ninguém fala em diminuir a máquina perniciosa do Estado. Só se discutem os extremos: se a produção industrial subiu ou não, se o Bolsa Família está funcionando. E depois quem é medíocre? Quem é culpado se não dá certo? A classe média, é claro.
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Como se não bastasse, a classe média é acusada de consumir e produzir o lixo cultural. Há um consenso silencioso: tudo que é artisticamente bom vem das elites ou do povo. Classe média é a classe medíocre. Por mais gênios que produza, a classe média jamais se assumirá como tal. Jamais terá orgulho do que é. É uma classe masoquista.
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Mas, já que estamos em ano eleitoral, decidi votar no candidato da classe média. Ele já tem nome: Grande Otelo, número 99. E deixem-me levar a minha vida de média.

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briguet@sercomtel.com.br

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