quarta-feira, 24 de junho de 2009

O Marrom e a questão do diploma

A “desdiplomação” dos jornalistas continua rendendo. Outra boa leitura sobre o caso, deflagrado equivocadamente pelo Supremo Tribunal Federal, é a do jornalista free-lancer de Londrina Marcos César Gouvêa, o “Marrom”.
***
Um artigo seu saiu na seção “Ponto de Vista” do “Jornal de Londrina” desta quarta-feira, dia 24. Veja abaixo:

Ação entre amigos no STF
O Supremo acabou com a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo. O primeiro efeito será o aviltamento salarial. A decisão abre caminho para um jornalismo de compadrio, de subserviência aos interesses de grupamentos políticos e econômicos. É o que já ocorre em 90% dos municípios brasileiros, onde nunca foi exigida formação superior.


No dia 9, o clima na “4ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Imprensa” já antecipava a sentença. Lá estavam dirigentes da Associação Nacional de Jornais (ANJ), da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert); Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner). A promoção foi da Aner e Câmara, com apoio da Unesco, Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Entre os canapés também estavam, sorridentes, o presidente da Câmara, Michel Temer; o presidente do STF, Gilmar Mendes; e o presidente do TSE e juiz no STF Carlos Ayres Britto.


Uma semana depois (dia 17), ao apoiar o voto do relator Mendes pela “inconstitucionalidade do diploma e do registro profissional do jornalista”, Ayres Britto, sofista como seus colegas, disse ele que há talentos naturais para o jornalismo que não precisam frequentar escola. Ele cometeu algumas heresias ao citar Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Armando Nogueira como destacados jornalistas que não possuíam diploma específico. Britto omite que foram jornalistas da geração de Otto, Drummond, Bandeira, Armando Nogueira, Pompeu de Souza e muitos outros do mesmo naipe que lutaram com êxito a batalha pela regulamentação da profissão, batalha anterior a 64, diga-se.


O argumento “entulho autoritário” é malicioso e mentiroso, como Ricardo Lewandowski, que sofismou nessa trilha. O argumento de que o decreto de regulamentação foi assinado na ditadura é de chocante desonestidade. Por essa lógica a regulamentação do flúor na água é ilegal e Itaipu deveria ser destruída. Sentado no próprio rabo, o ministro Cezar Peluso cometeu, entre outros, a seguinte pérola: “Há séculos, o jornalismo sempre pôde ser bem exercido, independentemente de diploma”. Ora, há séculos o barbeiro era médico e dentista.


Argumentar sobre o voto de Gilmar é perda de tempo. O sujeito não escreve coisa com coisa. Mas sabe ganhar dinheiro. Nesta semana a revista Carta Capital informa que o presidente do STF vem fazendo bons negócios com sua escola, Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), expandindo o número de contratos com órgãos públicos, todos sem licitação segundo a revista. Em 2007, quando Mendes ainda era só ministro do STF, o IDP faturou R$ 216,3 mil com esses convênios segundo Carta Capital. No ano passado, a quantia subiu para R$ 577,8 mil. E no primeiro semestre de 2009, o Tesouro já empenhou R$ 597,8 mil para pagar cursos.


No corpo docente do IDP figuram procuradores e ministros da República e auditores fiscais. Há muitos ministros de tribunais superiores que atuam como “professores-convidados” no IDP. O mais estranho é que nada menos que 6, dos 11 ministros do STF, estão na folha de pagamento do IDP. Isso não parece uma Corte Suprema. Parece mais “uma ação entre amigos”.

Nenhum comentário: