quarta-feira, 7 de abril de 2010

Divisor

Vou "emprestar" o belo artigo do colega Carlos Arruda (www.nomomento.jor.br) sobre a série "Arquivos Secretos", da RPC e Gazeta do Povo. Muito boa a análise, e corrobora com aquilo que já escrevemos aqui.
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E o Carlão, como sempre, bem preciso nas palavras. Valeu!!

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Um Divisor

A série de reportagens da Gazeta do Povo sobre os Diários Secretos da Assembléia, revelando a contratação de funcionários fantasmas, desvios de salários, e ocultação de atos oficiais é um feito notável na história de nossa imprensa – mas obteve na mídia, no mercado onde atua, uma repercussão aquém de sua importância.

As reportagens, demolidoras, colocaram no centro das atenções Abib Miguel, uma figura de comportamento discreto e de extrema confiança dos presidentes da Casa desde os tempos de Aníbal Khury, o Onipotente. Abib pediu afastamento do cargo de diretor-geral da Assembléia e foi a primeira baixa de peso do esquema, seguida de outros dois diretores que atuavam sob suas ordens.

Como acontece nessas ocasiões em que um míssil da imprensa atinge o cerne de uma tramóia política os céticos que dão plantão na côrte levantaram as perguntas e desconfianças de praxe: Por que a Gazeta fez isso? Será que a Gazeta esqueceu que também tem seus esqueletos no armário? É uma briga pessoal entre herdeiros da plutocracia e a elite das famílias que mandam politicamente no Paraná? Será uma tramóia da Opus Dei (organização católica a qual pertence o diretor da Gazeta Guilherme Cunha Pereira)? Qual o interesse em espremer este furúnculo?

A Gazeta, isto é notório, cresceu à sombra dos interesses oficiais. Não perturbar o Poder era o mantra preferido do empresário Francisco da Cunha Pereira. Com sua morte, os filhos Guilherme e Ana Amélia, nota-se, procuram modernizar as relações do jornal e aproximá-lo ainda mais da comunidade, um esforço que exige perseverança e investimento.

A nova postura implica em manter um olhar mais vigilante e crítico sobre os poderes constituídos e, suportar, eventualmente, entrechoques, rupturas, mágoas de segmentos, desaforos, briga com antigos aliados, novas alianças, contradições – aqueles sentimentos que o dr. Francisco dissimulava com maestria - e que compõem a substância do jornalismo.

A imprensa é política e o jornal é o seu profeta - dizia um antigo escritor que fundou, afundou e refundou muitos jornais em sua vida meteórica e prolífica.

Como nasceu a reportagem dos Diários Secretos? Os caminhos, dentro de uma redação, são tantos que uma pauta pode ser construída vagarosamente, ou então brilhar, súbita, cristalina, fruto de uma denúncia, uma constatação óbvia, um racha de interesses, um fôlego de cidadania, uma observação perspicaz e óbvia de um novato, o sentimento ferido de um desafeto, a ousadia a la Danton de um editor auto-confiante, um chefe distraído que se deixou convencer pela equipe cansada de subterfúgios, um jornal que resolveu lucidamente fazer história.

Não importa. A reportagem da Gazeta é um divisor de águas, e pobres ficaram os demais jornais do Paraná que por despeito ou visão antiquada das nuances que tecem o mercado e a concorrência, perderam uma ótima chance de repicar o assunto, de também ir atrás do fato (que não tem dono), de tentar uma abordagem própria e fazer novas e aprofundadas investigações, mostrar um outro ângulo, caçar testemunhos eloquentes. Enfim, respeitar o seu leitor. Isto não foi feito.

A Gazeta ficou sozinha, por isso merece todos os louros da façanha.

A criação de um selo exclusivo, a organização do assunto em capítulos; um levantamento das principais perguntas que não receberam esclarecimentos factíveis; a indicação de soluções através de especialistas no assunto – são exemplos de bom jornalismo, que, ao longo da publicação, foram acrescentados para facilitar o entendimento do leitor, passando a idéia de planejamento e pesquisa, o que não evitou pequenos escorregões no início; felizmente, eles não comprometeram o conteúdo final.

A reportagem da Gazeta desnorteou o presidente Nelson Justus e invalidou totalmente suas intenções de injetar seriedade no velho discurso da moralidade que ele sacou mais uma vez: “agora é pra valer, vamos cortar na própria carne, vamos organizar a casa etc e etc...). Mais do que isto, ajudou a inaugurar um tempo novo na burocracia do poder. Isto também significa problemas novos - mas aquela fase carcomida de balcão de açougue sem inspeção sanitária onde uma instituição promove seu festival de prebendas, sinecuras e dádivas à custa do orçamento, ah, isto foi formidávelmente exposto à luz do sol - que a natureza o guarde sobre todas as coisas - e o sol, grande astro - que a benção de Deus esteja sobre ele - ainda é o melhor purificador.

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